domingo, 1 de maio de 2011

A aposentadoria de Ronaldo e a nova face do futebol mundial.

*uma versão reduzida deste artigo foi publicada no OutrasPalavras.net, onde agora tenho uma coluna com o mesmo tema do TorcidaGanhaJogo.blogspot.com, confira: http://www.outraspalavras.net/2011/04/28/o-triste-futebol-da-era-ronaldo/


Em fevereiro de 2011, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial anunciou a sua aposentadoria. Como jogador. Ronaldo Luis Nazário de Lima antes mesmo de pendurar as chuteiras já havia revelado ao mundo os seus planos assim que deixasse de atuar nos gramados.

O que já se via de Ronaldo àquela altura era uma estrela que havia se tornado um grande empresário do mundo da bola enquanto ainda era atuava em campo. Inaugurou no Brasil um modelo inédito de parceria atleta-clube, o qual o próprio classifica como “a saída para os clubes brasileiros”.

Ronaldo pode ser considerado um marco de uma nova era no futebol, na qual os jogadores se tornam mega-estrelas, tendo status semelhantes a grandes artistas do show business da Industria Cultural. Coincidiu a sua explosão como grande jogador, que encantava milhões de torcedores em todo o mundo, com a nova ordem do futebol, cada vez mais mercantilizado, gerido por Federações que buscavam a todo custo adaptar-se a um modelo de empresa tendo participações em lucros exorbitantes e abusando do seu caráter de “direito privado”.

Ao voltar para o Brasil, quase uma estrela decadente, já sem apresentar o belo futebol que o consagrou, Ronaldo encontrou o terreno perfeito para seus planos. Clubes endividados, um futebol pra lá de deficitário, dentro e fora das quatro linhas e uma Confederação corrupta, tratada como um feudo pelo seu mandatário. Realidade que não via, por exemplo, na Europa, onde não mais encontrava espaço como jogador e já não gozava do mesmo respeito de outrora.

Não foi a toa que antes de escolher o clube mais adequado aos seus interesses – leia-se, fechar o melhor contrato – Ronaldo vagou pelo Brasil correndo atrás de contatos. Esboçou sua entrada no Flamengo, clube de maior torcida do país, fazendo entrevistas emocionadas em rede nacional, aparecendo em jogos do time, vibrando junto com a torcida que exaltava como a “mais bonita do mundo”. O que se viu, no entanto, foi Ronaldo acertando com o Corinthians, clube rival, e também de grande torcida, que foi o que lhe garantiu as melhores condições de negócio.

Ronaldo chega então ao Corinthians como o grande momento do futebol brasileiro em 2009. Por mais que se desconfiasse das suas condições físicas e técnicas naquele momento, o jogador conseguiu atrair um inédito patrocínio de 18 milhões de reais, acordo firmado com Batavo.

Não demorou muito e os resultados, de certa forma inesperados, vieram dentro de campo com a conquista do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil. É verdade que o Corinthians reforçou o elenco a ponto de garantir a independência do seu futebol diante do Fenômeno, mas as suas participações foram fundamentais também dentro do campo. Fora dele, os números se mostravam mais do que positivos: a arrecadação do Corinthians, entre patrocínios e publicidade, saltou de 24,7 milhões de reais em 2008 para 49 milhões em 2009.

O que ficava obscuro para a torcida do Corinthians, jornalistas e estudiosos do futebol em geral, era a participação real do jogador nesses lucros exorbitantes que a diretoria do clube, através do malicioso Andrés Sanchez, afirmava se concretizar. O que ficou em cheque e passou a ser o mote de muitos críticos da relação Ronaldo-Timão, foi a dificuldade em discernir quem dependia mais do outro.

A situação ficou insustentável a partir do começo de 2010. O Corinthians fecha um contrato bianual com a Hypermarcas no valor de 41 milhões de reais, sendo desse montante a assustadora fatia de 10 milhões para o jogador. Com a eliminação trágica do Timão na Taça Libertadores da América, torneio que ainda é o sonho de consumo da torcida alvi-negra, os valores se tornaram ainda mais questionáveis. Assim como o futebol de Ronaldo.

Ao longo de 2010, Ronaldo atuou com a camisa do Corinthians em apenas 19 ocasiões, incluindo o campeonato estadual, a próprio Libertadores e o Campeonato Brasileiro. Marcou apenas 8 gols, a sua principal função. Em cálculos simples, o clube pagou mais de 850 mil reais por jogo disputado. Mesmo jogando tão pouco, o fato de ainda ser jogador do clube lhe garantia contratos anuais com a Nike no valor de 1 milhão de dólares; com a Claro em 1,5 milhões, mesmo valor firmado com a AmBev; a participação de 80% dos 8 milhões destinados aos calções e ombro da camisa pela Hypermarcas; e por fim, um contrato com a Vale em 3,5 milhões só para uso da sua imagem no mercado chinês.

Ao mesmo tempo em que ganhava tanto, chegando à cifra impressionante de 29,7 milhões ao longo dos 21 meses com a camisa do Timão, a torcida organizava diversos protestos contra o alto valor dos ingressos, outrora justificados pela presença da estrela que não mais aparecia em campo. Em determinados jogos, o torcedor comum era obrigado a desembolsar 80 reais, o dobro do valor cobrado na maioria dos estádios da Série A do Brasil. Um sinal de que os argumentos que sustentavam a estadia de Ronaldo no clube já não mais faziam efeito. Sem jogar, o clube virou um misto de spa, agência de negócios e vitrine para jogador.

Acabado o triste ano do Centenário sem títulos do Corinthians, o ano de 2011 se iniciava com a dúvida sobre a aposentadoria do Fenômeno. Ainda havia uma Libertadores a ser disputada, talvez a forma de fechar com chave-de-ouro a sua carreira. O resultado foi a vergonhosa eliminação na fase preliminar do torneio para o modesto Tolima, trazendo uma imensa crise ao clube.

Agora sim, Ronaldo podia dar fim à sua carreira de jogador, passando a explorar o futebol em proveito próprio fora das quatro linhas. Algo que já estava desenhado desde o início de 2009, pouco depois de estrear no Corinthians, como revelou ele próprio em entrevista à revista Istoé Dinheiro em Setembro de 2010. Segundo Ronaldo, já estava em andamento a formação de sua empresa, a 9INE, uma sociedade com Sergio Amado e Marcos Buaiz.

Apenas a título de informação, Sergio Amado é o representante maior do grupo WPP no Brasil, gigante grupo econômico de Martin Sorrel, que faturou, apenas no primeiro semestre de 2010, o montante de 6,8 bilhões de dólares. O segundo parceiro, Marcos Buaiz, é o jovem herdeiro do grupo capixaba Buaiz que tem investimentos em áreas diversas como lazer e Shoppings Centers.

Os planos de Ronaldo com a 9INE é assessorar a carreira de jovens jogadores que se mostram potenciais estrelas. Usa a sua história como exemplo: um talento raro com pouco preparo mental para esse mundo selvagem que é o do futebol-negócio. Com uma fortuna avaliada em 250 milhões de dólares, Ronaldo revelou a intenção de explorar o mercado de jogadores também, afirmando ser um “negócio atraente” no qual “você compra dez jogadores e, se um der certo, já paga os outros nove” (sic).

Não bastassem a sua carteira de ações preenchida com nomes como Petrobras e Vale, a participação de 8% na rede de academias A!BodyTech, sociedade que tem nomes como João Paulo Diniz, herdeiro de Abílio Diniz, e do ex-banqueiro Luiz Urquiza; e até a propriedade do prédio onde funciona a Faculdade Estácio de Sá, a qual lhe garante percentuais nas matriculas dos alunos; Ronaldo prevê a atuação da 9INE na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpiadas de 2016, a qual já foi convidado para ser “embaixador”.

Ronaldo deixa de jogar futebol hoje, mas deixa para trás o seu legado. O que se verá daqui para frente com maior freqüência no Brasil é o modelo de parceria atleta-clube. Não mais como um jogador que é subordinado ao clube, empregado, e por isso alguém que deve satisfações à torcida que carrega as cores a qual ele foi destinado a defender. Como já começa a se configurar com a vinda de Ronaldinho Gaúcho ao Flamengo no início de 2011, o que se enxerga é a divisão clara entre o jogador-trabalhador e o jogador-empresa, aquele municiado de uma estrutura maior, de um status construído pela sua qualidade, mas também por uma gama de empresários capazes de articular esse tipo de negócio.

Ronaldo é hoje um tipo ideal para muitos jogadores brasileiros. Não muito diferente da “vida real” que supostamente existe fora do mundo mágico do futebol, o que se sabe é que a realidade do jogador comum é extremamente cruel, delegando a pouquíssimos o status conquistado pelo Fenômeno. Dados recentes apontam que 96% dos profissionais do futebol no Brasil – que são aqueles que fazem com que a bola não pare de rolar – recebem entre dois e três salários mínimos. Apenas 3% dos jogadores que atuam no país recebem mais do que 10 mil reais mensais. Uma realidade que se reverbera pelo resto do mundo, sofrendo alterações de acordo com as especificidades locais de cada país.

Ao passo que vemos essa realidade nefasta com jovens jogadores, que como o próprio Ronaldo apontou, são descartados no caso de não vingar - já que ainda assim compensariam financeiramente, caracterizando muito claramente uma exploração infantil do trabalho – não param de surgir empresas que esticam os seus tentáculos sobre rentável mundo do futebol-negócio. Essas que agem de modo a deturpar o principal sentido do futebol, que é o próprio jogo em si, em prol do seu negócio atacam principalmente os torcedores.

O mundo do futebol não está descasado da realidade social na qual vivemos. A apropriação privada dos bens coletivos, como o futebol, entendido como parte da nossa cultura, traz os mesmos efeitos negativos que visualizamos quando outros aspectos da nossa vida são privatizados. Sejam eles bens naturais, sejam os direitos coletivos que outrora já tivemos: a elitização, a higienização, a esterilização, o acesso seletivo definido pelo aporte financeiro, são os problemas que os torcedores, verdadeiros construtores do futebol enfrentam hoje e precisarão enfrentar nos próximos anos.

*Irlan Simões é estudante de Comunicação Social e torcedor do Esporte Clube Vitória. Atua no Movimento Somos Mais Vitória, na Associação Nacional dos Torcedores, na Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social e acha que o futebol deve ser jogador pela ala esquerda.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

2014 mudará nosso futebol.


Arquibancadas em reforma, pátio completamente coberto por barro e todo dividido por grades, poças d'água gigantes e estacionamento a R$ 10,00 e em situação precária. É isso que um torcedor colorado tem que aturar em seu próprio estádio além é claro de pagar um ingresso de no mínimo R$30,00, se for sócio do clube, ou R$60,00, caso não seja, para ver o jogo. E qual o motivo? a Copa do Mundo do Brasil de 2014. Eu me pergunto se vale a pena para sediar quatro partidas de uma Copa. Muitos me dirão que não são apenas os jogos, dirão que o Inter vai se beneficiar da copa, ficando com um estádio totalmente reformulado, mais moderno e mais confortável. Com isso eu concordo, o Internacional com toda certeza tirará proveito, mas a questão é o torcedor, este que já vem sendo a muito tempo esquecido pelas entidades do futebol, na minha humilde opinião, não será beneficiado, pelo contrário.
O Beira Rio sediou nos ultimos anos 3 jogos de finais de Libertadores, uma final de Sulamericana duas finais de Recopa Sulamericana, uma final de Copa do Brasil, e vários outros jogos de grande importância, inclusive da Seleção Brasileira, sem que fossem necessárias tais obras. Sendo assim porque a Fifa tem tantas exigências para a copa do mundo? Será que o Beira Rio já não era bom o bastante? Já não havia provado ser um bom estádio com capacidade para 56 mil pessoas? Lógico que sim. Acontece que a FIFA prepara os estádios para magnatas, para pessoas que na verdade não vão ao campo para ver o jogo ou torcer, pessoas que muitas vezes nem gostam de futebol. A entidade que comanda o futebol mundial com suas exigências está preparando o Beira Rio para pessoas que não são os torcedores do Inter, afinal para qualquer um deles o Beira Rio já estava maravilhoso. Acho bem dificil me enganar quando penso que depois dessa copa do mundo a elitização do futebol fique mais evidente no país, pois alguém tem alguma dúvida que com os estádios modernizados, confortáveis e transformados em arenas multi-uso, a CBF não verá mau algum em cobrar mais caro de quem quiser usufruir de todas estas mordomias?
E o pior nem é isso, nesta ultima semana os dirigentes do clube debaterão a possibilidade de aceitar recursos de uma construtora em troca de 20 anos dividindo os lucros do estádio e das estalações em geral. O clube está dividido entre reformar o estádio com recursos próprios e correr o risco de não ser a sede da copa, ou aceitar a ajuda da tal construtora amiga da FIFA e se consolidar como uma das sedes do torneio mundial de seleções que acontecerá no Brasil. O torcedor do Inter, no meio disso tudo fica só observando e torcendo para que o clube e as entidades deste esporte, que ele sempre amou e sempre vai amar não o exclua dos estádios como já fez com tantos outros!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

NOTA DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS TORCEDORES - NÚCELO SP

Nós da *Associação Nacional dos Torcedores - Núcleo SP* repudiamos a
marcação de jogos às 22h em dias de semana, com ingresso mínimo a R$ 20,00 e
em locais sem transporte público disponível em quantidade e qualidade. Esse
foi o caso do jogo de ontem entre Palmeiras x Universitaro de Sucre (BOL),
na Arena Barueri, com o agravo de que com a queda de energia no começo do
segundo tempo os torcedores, que já estavam em situação de completo
desrespeito, ficaram ainda mais prejudicados no trajeto de volta para casa.

Confira abaixo na íntegra nossa nota sobre os acontecimentos de ontem:
**
*Respeitem o torcedor!*
**
Na noite de ontem, 20 de outubro de 2010, o time do Palmeiras enfrentou os
bolivianos do Universitario de Sucre, jogo de volta das oitavas de final da
Copa Sul-Americana. O jogo, como todos os outros com horários definidos pela
televisão, começou às 22h - sobremesa da novela, quem trabalha no dia
seguinte que se vire com poucas horas de sono. Isso já seria um problema
caso a partida tivesse sido disputada no Parque Antarctica, casa do time
alviverde. Mas, graças à onda modernizante (ressaltando seu significado
elitizador), os Jardins Suspensos do Palestra Itália, que aliás deixarão de
ser suspensos com o rebaixamento do campo, assassinando assim a tradição e a
arquitetura característica do estádio, estão em reforma para dar lugar à
Arena Palestra, mais um estádio adaptado às "necessidades" da toda-poderosa
FIFA.

Com isso, ontem o time do Palmeiras jogou na também arena de Barueri, na
cidade de mesmo nome. Mas quem não está familiarizado com a geografia da
Grande São Paulo pode ainda não ter identificado um problema. Seguem, então,
alguns dados.

Barueri é um dos muitos municípios-satélite da enorme da cidade de São
Paulo. Distante 26km a oeste da capital, ficou mais conhecida no cenário
futebolístico nacional pela ascensão do clube-empresa que até o início deste
ano era sediado lá, o Grêmio-SP, às divisões principais do futebol paulista
e brasileiro. Porém, brigas entre prefeitura - dona da Arena - e
investidores - donos do clube-empresa - levaram o Grêmio-SP a Presidente
Prudente, no que foi um dos casos mais polêmicos do nosso futebol neste ano.

A Arena de Barueri, então, ficou "às moscas". O estádio moderno construído
junto a uma região pobre da cidade - onde há pontos, principalmente nos
setores menos caros, em que não se enxerga todo o campo, os famosos pontos
cegos - vem sendo utilizado desde então principalmente pelo Sport Club
Barueri, ex-Campinas Futebol Clube, outro clube-empresa que também mudou de
cidade e disputou esse ano a Série A3 do futebol paulista. Casa cheia na
Arena? Nem pensar. Nem quando os grandes de São Paulo, atraídos pela
possibilidade de renda maior que a do Pacaembu oferecida pela prefeitura de
Barueri, resolvem jogar lá.

Com o Palestra Itália fechado, foi o que o Palmeiras fez ontem. O torcedor
palmeirense da capital, então, se viu na situação de ter que ir até Barueri
às 22h para um jogo que acabaria no mínimo 0h - no mínimo, porque poderia
haver disputa de pênaltis. A Arena Barueri, pra piorar a vida do torcedor,
fica no limite oeste do município, perto da divisa com Jandira, e a
possibilidade de acesso via transporte público é praticamente uma só: o
trem, que pra quem vem de São Paulo, mesmo que da região oeste da cidade,
significa uma viagem de quase 1 hora e mais uma caminhada de 20 minutos até
o estádio. Ir de carro, portanto, é a melhor "opção" - ou seja, o torcedor
não-motorizado já está em enorme situação de desvantagem.

O cenário já é bastante absurdo, um desrespeito completo com o torcedor e um
retrato do refém que se tornou o futebol brasileiro em meio ao discurso
modernizador/elitizador do esporte. Jogo às 22h, fora da cidade-sede do time
mandante, ingresso a R$ 20,00 no mínimo (uma pequeníssima carga deles
apenas), sem transporte público garantido na volta - os trens param pouco
depois da meia-noite. Pra piorar a situação, aos 50 segundos do segundo
tempo, a energia do estádio caiu, paralisando a partida em mais de 30
minutos.

Se a pergunta "como os torcedores voltarão para casa?" já era muito difícil
de ser respondida por quem não tem carro, agora era impossível. Ou melhor,
agora a resposta era fácil. O Palmeiras, clube com milhões de torcedores
espalhados pelo país, venceu o Sucre por 3 a 1, com apenas 10.741 presentes
- a capacidade do estádio é de 35.000 pessoas e para ontem foram
disponibilizados 28.890 ingressos. O jogo terminou à 0h32. Grande parte dos
torcedores não voltou para casa - amanheceu em Barueri. A renda do jogo foi
de R$ 236.477,00, o que dá uma média de aproximadamente R$ 22,00 por
ingresso - assumindo-se que todos os torcedores pagaram ingresso, o que é
pouco provável; R$ 22,00 para ter de sair antes do fim do jogo para
conseguir chegar em casa ou ter que dormir na rua.

Diante disso tudo, situação que não é casual em nosso futebol, deixamos a
você, torcedor e cidadão, mesmo que não tenha o hábito de ir aos estádios, a
pergunta: até quando nos submeteremos a esse tipo de tratamento? Nossa
paixão vale tão pouco para sermos desrespeitados a esse ponto sem falar ou
fazer nada?

Nós da *Associação Nacional dos Torcedores* achamos que não. Já basta. Já
chega. Mas pra conseguirmos mudar essa realidade precisamos da força de
todos os torcedores, independentemente do clube para o qual torçam.

Portanto, se você também ficou indignado ao ler esse texto, venha nos
conhecer e participar. Entre em *www.torcedores.org* e junte-se a nós. No
domingo, no Pacaembu, já estaremos fazendo barulho antes e durante o derby
entre Corinthians x Palmeiras.

Porque somos muito mais que consumidores, somos torcedores. E exigimos
respeito.

*Associação Nacional dos Torcedores - núcleo São Paulo
**Torcedor não é palhaço!*


domingo, 17 de outubro de 2010

Torcedores, a hora é agora!

Como todos que acompanham este blog sabem muito bem, nós sempre propagamos a idéia e a importância do ativismo político. Tendo como principal bandeira do blog a defesa do futebol como cultura, sempre procuramos colocar o direito de SER TORCEDOR como um direito social.


E agora é a hora.


Está sendo fundada, e não para de crescer, a
ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS TORCEDORES.

É o momento de botar o bloco, a banda, a barra, a torcida, na rua e lutar pelos nossos direitos de ter o futebol para o povo e pelo povo.

A luta contra o Futebol Moderno passará exatamente pela mobilização dos torcedores em defesa do futebol como cultura e em detrimento do futebol-mercado.


Então, entre aqui:
WWW.TORCEDORES.ORG

Filie-se, e proponha a criação de um núcleo na sua cidade. Faça parte, porque FIFA, CBF e seus parceiros já abusaram demais da nossa desmobilização.



NÃO AO FUTEBOL MODERNO!

domingo, 10 de outubro de 2010

“Erhalt der Fankultur” - Passeata geral dos Torcedores da Chucruteland

Nada na vida cai do céu ou é dado por um milagre divino. Tudo é produto de luta e trabalho, nenhum direito é garantido sem esforço ou suor. Nenhuma garantia é conquistada sem confrontos e lutas. Isso é um fato, seja na História ou nas Arquibancadas...

Existem várias formas de Luta, desde de um sim
ples abaixo-assinado até a tomada direta do céu em assalto. Tudo é válido no acúmulo de terreno e consciência na Luta contra o Futebol Moderno e suas mazelas.

As passeatas populares são uma dessas formas diretas de demonstração de uma insatisfação geral. E pode (e deve) ser usada no Futebol. Ontem milhares torcedores de mais 50 clubes de toda a Chucruteland se reuniram em Berlin para exigirem mais direitos e liberdades nas arquibancadas.


O tema da passeata em Berlin foi “
Erhalt der Fankultur” (Pela manutenção da Cultura de Torcida) e entre as reivindicações estavam vários sintomas e abortos característicos do Futebol Moderno.

Entres as demandas estavam;


- Pelo fim das restrições nas arquibancadas, pelo fim dos horários dos jogos determinados pela TV, Pelo fim da comercialização do Futebol, Pelo fim dos banimentos de torcedores dos estádios, pelo fim da Brutalidade Policial e pela manutenção da regra do 50%+1 no futebol alemão.


Cada torcida teve seu bloco na passeata para evitar que as rivalidades interferissem na luta comum dos torcedores. E cada bloco poderia levar suas cores,
bandeiras e cantos livremente.

Um destaque engraçado para o grupo “Schickeria München” do Bayern de Munique que trouxe um Darth Vader inflável gigante com as iniciais USK. Para quem não sabe a USK (Unterstützungskommando) é a tropa de choque da Bavária e uma das recordistas de casos de Brutalidade Policial contra torcedores.

Esse dia foi uma prova que torcedores dos mais diversos clubes podem dizer um basta a tudo que é imposto pela FIFA e suas demais máfias. Essa passeata em Berlin foi uma verdadeira aula na luta contra o Futebol Moderno.

Mais Fotos da Passeata geral >> Aqui



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Por mais emoção nos estadios
















Um estádio lotado, num barulho ensurdecedor, jogadores perfilados esperando a hora de pisar no gramado, todas as atenções voltadas para a entrada da equipe da casa no campo de jogo. E a equipe entra, a festa acontece nas arquibancadas, sinalizadores, fumaça, papel picado, balões, bandeiras, faixas, bobinas, mosaicos e fogos de artificio, tudo isso somado à grande emoção e sentimento. É o futebol, ou pelo menos o que sempre imaginamos que seja este esporte. Não importa o que digam os cartolas e a midia, não há nenhum argumento que consiga tirar de nossas cabeças que isso é o futebol e que ele só existe dessa forma porque existem os apaixonados, a festa, os torcedores.
Proibir sinalizadores, cantos ofensivos, materiais festivos é de uma pura indecência e falta de consideração ao ser humano, é negar o passado, a cultura e a história de um povo, é simplesmente dizer a um homem que batalha todos os dias pelo seu sustento que no momento que ele achou que podia extravasar a sua emoção ele deve se aquietar, deve agir conforme um código de conduta além daquele que ele recebeu como educação. É fazer pior, é tirar este homem das arquibancadas, substituindo-o por outro mais bem vestido, mais comodista, mais refinado que está ali sem emoção, quase que por obrigação, pois já que pagou ficará ali até que se apite aos 90 minutos.
Porque proibir algo que se fazia tão inofensivo? porque? Por causa da midia, a midia paga e a midia quer cobrar, será que alguém algum dia ligou pra Globo para reclamar que não conseguia ver o jogo por conta dos sinalizadores? Acho que não, mas então por que tirar o direito da torcida fazer festa? porque? não sabemos e provavelmente continuaremos sem resposta, pois uma medida arbitrária não tem justificativa, simplesmente é imposta.
Paremos para refletir, pensar sobre o que nos acontece atualmente, sempre se lutou tanto por liberdade de expressão, e o que se vê é um ataque ao espetáculo cultural mais amado no mundo, é uma afronta àqueles que fazem do futebol sua maneira de ser notado, de fazer diferença, de se expressar, Não à Ditadura no Futebol.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

The Shouting Men, Humor nosense com Hooliganismo em cadeira-de-rodas

Imaginem o humor nosense inglês aplicado a temática do Futebol. Isso é The Shouting Men, procurem no cinema e se não encontrarem, baixem ou roubem de alguém, mas essa é uma boa dica de filme para os leitores do blog.

Gillingham F.C. é um pequeno clube da 4º divisão inglesa que vai jogar contra o todo poderoso Newcastle United nas quartas-de-final da Copa da Inglaterra.

Dez torcedores do pequeno Gillingham F.C. resolvem encarar uma viagem de quase 500 quilômetros até Newcastle para acompanhar essa histórica partida.

Só que nesse pequeno grupo podemos encontrar de tudo que se possa imaginar na sociologia humana...

Um escocês alcoólatra, uma guria ninfomaníaca, um velhinho com problemas no coração, um divorciado cheio de complexos, um pai e um filho com problemas de relacionamentos e até um Hooligan-sem-pernas louco para começar a primeira briga mesmo estando preso numa cadeira de rodas.

Apesar de ser apenas uma comédia, esse filme me fez pensar sobre quantas loucuras são possíveis para um torcedor fazer em nome do Futebol.




terça-feira, 14 de setembro de 2010

Torcida, criminalização e exclusão: desde 1906!

Em tempos de Torcidas Organizadas que viram Escolas de Samba e verdadeiras empresas, é difícil imaginar como surgiu no Brasil toda essa paixão que é típica dos nativos pelo futebol, e como surgiu essa "loucura" que é torcer. Como uma vez me falou Fred, daqui mesmo do blog: "No Brasil o futebol tem uma conotação diferente da Europa: é pura catarse".

A relação do brasileiro com o futebol é muito, muito mais antiga do que a gente possa imaginar. Tive acesso a um artigo muito interessante sobre o futebol na Bahia nos seus primórdios, considerando os
primeiros torneio entre clubes de Salvador. Vale lembrar que naquele contexto o futebol ainda era amador, com os clubes sendo formado exclusivamente por "homens de bens" que praticavam o esporte numa concepção de lazer. Para tanto organizavam seus clubes esportivos, que competiam entre si. Os "populares" ficavam sempre à margem do jogo, e à margem do campo, apenas observando aquele jogo que lhes impressionava

O artigo em destaque é esse aqui: FUTEBOL E CULTURA POPULAR EM SALVADOR, 1905 - 1915, de autoria de Henrique Sena dos Santos, um acadêmico que fez uma importantiéssima pesquisa sobre como o futebol remodelou e expôs uma série de características da tradicionalmente racista e excludente sociedade baiana. Que só nos mostra o quanto isso se repete até hoje.

Gostaria de destacar exatamente esse trecho de uma reportagem usada pelo autor, mostrando que desde 1906 imaginar pessoas que se envolvam com o jogo, mesmo que não estando dentro de campo, possam interferir no mesmo, incomodava muita gente. E as medidas, adivinhem, eram exatamente as mesmas: reprimir.

Abaixo um trecho de uma matéria sobre o jogo Vitória 2 x 1 Internacional
"É de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público
acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os
escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém
notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como
hospedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta
inconveniência que vai se tornando um péssimo costume."
(Jornal Diário de Notícias, 11 de junho de 1906)

Detalhe importante: o clube do Vitória, fundado em 1899, era composto exatamente por
brasileiros que não tiveram a oportunidade de jogar no Internacional, clube composto exclusivamente por gentlemans ingleses. A cara do Brasil pós-colonial, subserviente agora à grande potência do século XIX e XX.

De lá para cá o futebol mudou bastante, se tornou um esporte profissional, atraiu milhões de pessoas para o estádio e gera uma absurda renda para os seus envolvidos. No entanto, o que vemos aqui é uma característica em particular que existia muito antes do jogo ser uma paixão nacional, pintada e bordada por tantos dramaturgos românticos, ou até antes mesmo de existirem competições profissionais e de alto rendimento; sempre existiu, e permanecerá viva por mais que se lute contra: o torcedor.

O que vemos hoje após o Estatuto do Repressor, dentre outras medidas absurdas que tem sido tomadas ao redor desse grande globo que, não à toa, parece uma bola, é que estão, mais uma vez, tentando deixar de fora o que há mais de cem anos eles chamam de "vândalos".


Isso mostra como para os donos do futebol a torcida ativa sempre significou um incômodo. Com o evoluir do esporte, só vimos provas de como "aquele povo mal-educado sentado na arquibancada" tem direitos até o limite em que não interfiram nos negócios de dirigentes e cartolas. Na
medida em que se tornam fortes demais e passam a mandar no jogo, deixam de ser importantes. Ou seja: ou é massa de manobra, ou não é nada.

Acabo então por remeter toda essa situação ao que se passa hoje no Vitória: o processo de democratização do clube. Após anos de "feudalismo" no clube, torcedores se mostraram indignados e hoje cobram eleições diretas. Para tanto já lançaram até um movimento.
No primeiro passo dado por esse grupo de torcedores, que nunca tiveram condições financeiras e nem status quo para atingir altos postos do comando do clube, os grandes cartolas que sempre dominaram o ECV tremeram. Antes mesmo de alguma manifestação, muitos já respondiam negativamente à idéia, chegando ao ponto do Presidente do Conselho Deliberativo do Vitória falar sem qualquer escrúpulo que é contrário às eleições diretas.

E assim sempre será.

Passou do tempo dos torcedores de todo o Brasil se levantarem e cobrarem o que mais defendemos aqui no TGJ: o futebol para os torcedores, o futebol para o povo.

Só assim, com a extinção de cartolas oportunistas, dirigentes interesseiros e seus lacaios sangue-sugas que poderemos derrotar a o futebol moderno, que transformou essa paixão mais do que centenária em um grande balcão de negócios, que tem como fim apenas o lucro.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Spruchbändern, quando o simples é o eficiente

Existem inúmeras formas de protesto, isso só depende do grau de consciência da Torcida. Tudo pode ser válido para que o acúmulo de ação possa elevar o nível de consciência da massa, desde um simples abaixo-assinado até uma passeata de torcedores. Tudo é possível e tudo pode ser usado em uma luta.

Uma coisa que aprendi, aqui na Alemanha, é a utilização constan
te do que em terragermanis é chamado de “Spruchbändern”. Faixas horizontais de papel que cruzam as arquibancadas com frases e palavras de ordem da Torcida.

Essa velha maneira de comunicação e protesto é uma rotina nos estádios daqui. Tudo se resume a um simples rolo de papel com 80 cm de largura por alguns metros de comprimento, onde se escreve o que for necessário para que a torcida possa ser lembrada. Barato pela utilização de material reciclável e descartável após o uso. Tudo é segurado no braço mesmo pelos torcedores durante alguns minutos durante vários momentos da partida. Como tudo é de papel, pode-se usar dezenas de frases durante os 90 minutos.

Acho que já vi tod
o tipo de frase nas curvas da Bundesliga. Frases políticas (seja de esquerda ou direita), econômicas (a luta pela regra do 50%+1), institucionais (sobre a DFB ou a FIFA), clubísticas (sobre o clube em si ou o rival), históricas (sobre a guerra), culturais (sobre as diferentes regiões na Alemanha) e até sobre um determinado lance do jogo (como uma faixa que se dizia apenas “Falta!").

Essa tradição vem desde da idade média
e renascença, os Spruchbändern são os precursores dos balões de fala muito utilizados nos quadrinhos. Podemos ver esses rolos com frases em varias pinturas renascentistas, na heráldica alemã e até em tatuagens. Algo que já existia em inúmeras ocasiões da vida pode ser, e deve ser, utilizado nos estádios.

Sempre é bom testar se existe mesmo liberdade de expressão no Futebol Moderno.

O simples ainda pode ser o eficiente...


sábado, 7 de agosto de 2010

Torcedores: À LUTA!

A aprovação do “Novo Estatuto do Torcedor” no dia 27 de julho de 2010, trouxe à tona mais uma vez toda a polêmica do novo modelo de futebol que está sendo aplicado dia-a-dia no Brasil e no mundo.

Como já falamos várias vezes aqui no TorcidaGanhaJogo.blogspot.com ; o futebol moderno veio a transformar os estádios e o jogo em um espaço elitizado, no qual as pessoas deverão se comportar como meros espectadores, pagarão ingressos caríssimos, ficarão sentados, assistirão ao “espetáculo” e voltarão para casa, tal qual uma ópera.

Acontece que essa lógica vem a subverter o verdadeiro sentido do futebol. O jogo se formou historicamente no que é hoje, pelo fato de conseguir trazer para si uma gama de sentimentos que só o futebol é capaz de proporcionar, envolvendo multidões que buscam no jogo única e exclusivamente defender as suas cores e seus mantos, numa atividade que é inquestionavelmente cultural.

Nas últimas décadas, o futebol se tornou (através da força da lei) um grande mercado, no qual interesses particulares interferiam no andamento do jogo e de todo o seu funcionamento, criando distorções nos seus princípios, e verdadeiras aberrações justificadas pelo simples fato de agora o futebol ser pautado pelas leis do dinheiro, e não por ser simplesmente o futebol.

Não precisarei aqui entrar em casos mais detalhados e recentes como o de J. Hawilla e a Traffic, como os clube-empresa intinerantes e nem os proprietários mafiosos dos clubes europeus (caso tenha interesse em saber mais sobre isso, acompanhe os outros posts do nosso blog).

O importante aqui é entender que o novo Estatuto do Torcedor é mais um golpe no futebol. O tal estatuto e as suas novas regras “mais rígidas pela moralidade do futebol” estão fundamentadas exatamente na concepção de futebol como um mercado. E isso é extremamente perigoso, uma vez que para o futebol-mercado não existe mais o categoria “torcedor”. Agora somos todos “consumidores”.

Mais uma vez, na base da lei, manipulam o sentido do futebol, distorcem-no, transformam-no e nos impõe uma medida indesejada. Não se trata de um Estatuto do Torcedor, e sim um estatuto que vem a destruir completamente tudo o que é típico de um torcedor nas arquibancadas: a festa, a paixão, as coreografias, os cantos etc.

Dentro disso, podemos colocar a maior proibição recente: a pirotecnia. Sinalizadores, piscas e qualquer tipo de fogo de artifício, após a aprovação do “estatuto”, são considerados objetos que podem gerar a desordem no estádio.

Qualquer pessoa que minimamente já participou de uma festa no estádio que envolvesse fogos de artifício sabe que é preciso muita má índole para ferir alguém. No entanto, como já falei antes, subverteram a realidade, e os fogos foram proibidos porque incomodavam... as transmissões televisivas!

Fomos proibidos e ameaçados de prisão por fazer a nossa festa porque, alegam os tais promotores e “especialistas em segurança pública”, senhores que nunca pisaram em estádios, que os sinalizadores podem ferir pessoas, quando na verdade defendem os interesses das empresas que transmitem as partidas, porque a fumaça pode atrapalhar as imagens.

Já passou da hora de se levantar e lutar pelo bem do futebol, pelo verdadeiro direito do torcedor e pela integridade desse bem cultural mais do que centenário em nosso país.

Se o estatuto é do TORCEDOR, que seja o TORCEDOR quem vai dizer o que deseja e o que deve ser feito. Não somos consumidores e não vamos ao estádio exibir status e tomar uísque. O estádio é para nós uma casa, onde encontramos amigos, pessoas que se identificam com o mesmo clube que você e vai para lá fazer festa, apoiar o time e “ser gente”. O futebol foi feito para ser vivido, e não comprado e exibido numa nota fiscal e nem para fazer meia dúzia de espertos ricos por brincarem coma nossa paixão.

O blog TORCIDAGANHAJOGO.blogspot.com faz um convite a todos os que amam o futebol e que são TORCEDORES, a se levantarem, organizarem os seus companheiros de clubes, e até mesmo superar as rivalidades convidando torcedores de outros clubes, e se envolverem nesse movimento que já é realidade e é apenas o primeiro passo para uma série de conquistas contra o futebol moderno.

Comunidade PIROTECNIA NÃO É CRIME
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=105077378

Comunidade NÃO AO FUTEBOL MODERNO
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=23958689

Acompanhe as discussões, dê sugestões e façamos valer a voz dos verdadeiros torcedores.

E que levemos o mais rápido o possível essa ação para a arquibancada. Esse é um jogo que não podemo deixar de ganhar.


domingo, 1 de agosto de 2010

Reflexos do Novo Estatuto do Torcedor.

"Mau comportamento nos estádios terá penas mais duras a partir de hoje. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta terça-feira o projeto de lei que altera o Estatuto do Torcedor. Com ele, o torcedor que cometer atos de vandalismo e violência em até 5 km dos estádios, invadir o campo ou promover confusão pode pagar multa, ser proibido de assistir aos jogos e até ser preso."

Notícia postada no site de esportes do Uol por Camila Campanerut, leia na íntegra em:

http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2010/07/27/novo-estatuto-do-torcedor-pode-banir-organizadas-por-ate-tres-anos-dos-estadios.jhtm

Eu lutei o máximo para não falar desse assunto aqui no blog, mas acaba sendo inevitável quando começamos a perceber o que está armado para nós torcedores nos próximos jogos de futebol, pelo menos aqui no Rio Grande do Sul. A Torcida Guarda Popular do Inter, do Sport CLub Internacional, teve na ultima reunião com a Polícia Militar duas de suas músicas censuradas e proibidas por conter palavrões e agressividade, os trechos das mesmas que segundo a Policia continham tais ofenças são, "matar um puto tricolor" de uma versão de Have you ever seen the rain da banda Creedence Clearwater Revival e "lá no bairro da azenha há uma banda puta que faz avalanche" "cuidado o gremio, nós vamos derrubar o chiqueiro" de uma versão de um canto comum na Argentina.

Além da censura de musicas a polícia também informou a inclusão de um posto policial cinegrafista que registrará toda a ação policial no estádio e expressou a vontade de cadastrar membros da torcida, que por não se intitular Torcida Organizada nega qualquer convite de cadastro.

Sabemos que já é comum leis serem implantadas sem antes pensar em como serão executadas e como serão treinados os responsáveis por torna-las vigentes. O Despreparo em tal circunstância pode acarretar em grande confusão na bancada.

Amanhã é dia de GreNal vamos ver como se sai a aplicação do novo estatuto.
NÃO AO FUTEBOL MODERNO

terça-feira, 27 de julho de 2010

BSG , A Gestão Coletiva na Antiga Alemanha Oriental

Existem inúmeras formas de gestão coletiva nas empresas e indústrias, quando estas são democraticamente socializadas, e todas essas idéias podem ser extendidas aos Clubes de Futebol.

Na antiga Alemanha Oriental, por exemplo, houve o modelo dos Betriebssportgemeinschaft ou BSG, uma resposta coletivista de gestão no Futebol. A reconstrução de uma nova Alemanha Socialista se deu na base do conceito da “Reorganização baseada na Produção”. Esse novo conceito entregou vários clubes de Futebol para serem geridos e organizados pelos trabalhadores da produção de base locais. Foi-se extinto o antigo modelo reacionário Nazi-Elitista, para ser suplementado por um modelo socialista, onde as organizações de base se transformaram nos novos Gestores.

Uma tradução rudimentar e ao pé da letra dos BSG, seria “Comunidade Esportiva da Companhia”, e essa companhia pode ser qualquer fábrica ou ramo da produção.
O clube passa então a ser gerido diretamente pelo sindicato ou representação de base daquele ramo produtivo, por exemplo, o Chemie era o time gerido pelo sindicato dos trabalhadores da indústria química. Os gestores do clube passaram a ser eleitos por todos membros daquele ramo da produção local.

O que era antes, no período Nazi, chamado de Leipziger SV, organizado apenas como um clube esportivo (Sportverein), foi entregue depois da guerra aos trabalhadores da indústria química e virou BSG Chemie Leipzig. O sindicato passo
u a ter o total controle sob o clube, e até hoje a maioria dos torcedores trabalham no mesmo ramo da produção. O mesmo ocorreu com o FC Energie Cottbus que passou a ser gerido pelos trabalhadores das minas de carvão e reorganizado como BSG Energie Cottbus e assim por diante. As únicas exceções eram os clubes organizados pela polícia que eram chamado de “Dynamos” e os clubes organizados pelo exército denominados de “Vorwärts”.


Os clubes BSG recebiam todo o patrocínio e apoio dos seus respectivos “Volkseigener Betrieb”, empresas do povo geridas coletivamente através de cooperativas. E nenhum jogador poderia ganhar nem mais nem menos que qualquer trabalhador daquele ramo da produção, mas este estaria liberado para treinar e jogar em tempo integral como qualquer jogador profissional.


Isso eliminou a possibilidade de explosão inflacionária dos salários que hoje vemos no Futebol Moderno, onde clubes inteiros quebram só para pagar as folhas de pagamento. Recentemente até o todo poderoso Barcelona, um dos clubes mais ricos do planeta, pediu um empréstimo de 150 milhões de euros para cobrir os salários milionários de seus jogadores, algo impossível de imaginar nos BSGs. O histórico meio-campista Jürgen Sparwasser autor do gol da vitória da Alemanha Oriental sob a Alemanha Ocidental na copa de 1974, ganhava o mesmo salário que qualquer operário da indústria de Magdeburg recebia no final do mês.

Formas de organização coletiva existem várias e com inúmeras possibilidades, não vou nem disserta sobre isso. O que temos que lembrar é que isso tudo faz parte de um processo histórico que como diria o velho poeta Samuel Beckett, cabe a nós tentarmos e se falharmos, tentaremos de novo para falharmos de uma formar melhor...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Caso Felipe/Corinthians e o esvaziamento das relações subjetivas.

Deixarei um breve comentário sobre o caso que tem deixado muito formulador de futebol confuso sobre que parte tomar.

Fazendo uma breve contextualização: Felipe, goleiro do Corinthians, forçou o clube a negociá-lo, criou um certo desconforto na sua relação com os dirigentes. Foi negociado com o Genoa da Itália, mas teve o negócio frustrado quando o clube desistiu de contratá-lo por conta do excessivo número de jogadores estrangeiros no plantel. Felipe acionou o sindicato dos atletas e fez com que o Corinthians o readmitisse, uma vez que não poderia mais atuar por outro clube no Brasil e também não teria conseguido fechar contrato na Europa.

Colocamos aqui dois lados da questão: 1) A questão trabalhista de Felipe, que vive em intenso conflito com a direção Corinthiana, uma vez que é assalariado do clube, e deve satisfações 'à empresa'. 2) A questão que se tornou frequente no futebol moderno de jogadores que abandonam clubes pensando único e exclusivamente no seu aspecto financeiro pessoal.

Como bons defensores do futebol que somos aqui no TorcidaGanhaJogo.blogspot.com venho trazer alguns pontos que devem ser intensamente discutidos nessa fase turbulenta que passa o futebol no mundo.
Um primeiro ponto importante a ser colocado é que o jogador de futebol hoje não é um trabalhador qualquer. Mesmo que seja uma minoria, o futebolista alcançou um status diferenciado do resto da classe. Pode ser colocado hoje ao lado dos artistas 'star system', como alguns estudiosos da Industria Cultural costumam colocar.

Tais seres do star system não são meros vendedores da sua força de trabalho. São privilegiados partindo do principio que tem maior poder de decisão sobre o seu ganho, e ainda tem a partir do seu exercício profissional uma série de outras oportunidades de renda. Portanto, algo importante a ser pontuado na discussão é que não se trata meramente de uma questão "trabalhista".

Felipe tinha um propósito, ir para a Europa e ganhar melhor. Tem qualidade para isso e já tinha destino certo. Forçou o Corinthians a fazê-lo da mesma forma que Kaká fez ao São Paulo: colocou que o seu contrato expirava dentro de meses e caso não fosse vendido imediatamente o clube só teria a perder. Ou vendia o jogador pelo preço que ali estava, ou perdia o direito do seu passe.

Aqui então colocamos como o futebol moderno e os seus altos valores extra-futebolísticos (grana que só existiu no jogo a partir do football business mesmo) tornaram esse fenômeno tão comum. Jogadores que saem do clube a cada ano, mesmo que tenha posição de quase-ídolo, como era a de Felipe no Corinthians.

Hoje o que existe é uma tendência oportunista: jogadores que mal sabem ler, agenciados por empresários espertalhões, mudam de clube de acordo com a melhor proposta. Isso tem levado o futebol ao buraco, uma vez que não se forma mais o vínculo entre jogador, clube e torcida, uma das principais razões do futebol ser o que hoje é, uma grande construção coletiva de relações subjetivas.

Em um artigo na sua coluna no Estadão, Carlos Alberto Sardenberg, comemorou a vitória da Espanha na Copa do Mundo como um triunfo do livre mercado em prol do ganho do futebol. O pseudo-economista quis mostrar, com argumentos estapafúrdios, como, através da liberdade economica dos clubes espanhóis, o futebol nacional cresceu e subiu o seu nível (vale a pena conferir o absurdo).

Com isso aproveito pra fazer um gancho e explicar o seguinte: quando se critica a comercialização de algo, a transformação de bens culturais em objetos de troca, não se reclama apenas do poder econômico que impera sobre tudo ali dentro, se coloca acima de tudo, o esvaziamento das relações por conta da busca um maior ganho material.

O caso Felipe é apenas mais um para ilustrar como o futebol hoje tem sido deixado em segundo plano por ter virado um grande mercado. Tal qual a música tem sido produzida industrialmente deixando de lado o valor e os aspectos culturais que esse ramo da arte carrega, o futebol tem se tornado um mero mercado de conquistas superficiais de títulos/status, para maior atração de recursos.

Os clubes, colocados em uma organização típica de empresas, buscam para si retorno financeiro tratando o torcedor, antigo apoiador e sócio que apenas buscava o lazer no futebol, como um mero consumidor. O jogador que, mesmo recebendo salários e sendo um atleta, criava vínculos que iam além da relação do trabalho, buscando fazer parte da história daquela experiência coletiva, busca hoje o melhor salário do leilão e troca de clube a cada 8 meses.

Já o torcedor, aquele que ainda não aceita ser chamado de consumidor, que vai ao estádio, ao invés de ficar em casa assistindo pela TV... bem, esse já tem desistido do jogo. E aqui parafraseio uma amiga torcedora do Bahia: "Pra que ir pra estádio dar dinheiro praquele bando de safado que não tá nem aí pra mim?".


O futebol só vai mudar quando a sua estrutura política e econômica mudarem. Só vai mudar quando deixar de ser um grande balcão de negócios.

E isso não será pela boa vontade dos seus "donos".



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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Futebol e Publicidade, A Indústria do Estupro das Camisas

Coleciono camisas de futebol a mais de 20 anos, minha primeira camisa eu ganhei ainda moleque e hoje tenho mais de 250 exemplares dos mais obscuros lugares do planeta. E qualquer colecionador maluco pode notar os "estupros graduais", que os patrocinadores impõem no maior símbolo futebolístico para um torcedor, sua camisa.

Esse estupro vem de uma forma gradual e pode ser através de uma simples faixa publicitária na barriga, ou podemos ir ao extremo de inúmeros logotipos na camisa, das mangas e onde não se pode nem imaginar. Para os publicitários do Futebol Moderno até a cores seculares podem ser violadas, tudo em nome do mercado e do dinheiro. Assim como uma vítima pode ser estuprada de inúmeras formas, a camisa no futebol obedece à mesma ótica dos violadores. A arma do dinheiro é colocada na cabeça do clube, e esse obedece a todas as “taras” dos patrocinadores, e que se dane a História ou a Torcida.

A camisa de futebol é o mais importante de todos os símbolos no Futebol. Maior que a bola, maior que o jogador, maior até que o próprio presidente do clube. Bolas, jogadores, dirigentes vão e vêm todo ano, desde que inventaram esse jogo a única coisa que fica é a camisa. Esse objeto de fascínio de tantos, seja pelas cores ou pelo escudo, é a única coisa permanente nesse esporte. Por isso que o torcedor é um obcecado e o colecionador um esquizofrênico.

O Club Atlético Peñarol entrou para a História como o primeiro clube a conceder publicidade nas camisas já nos meados dos anos 50. Mas tudo não passou de uma brincadeira e esse negócio só foi levado a sério 20 anos mais tarde, e o clube que realmente inaugurou e sistematizou essa indústria do estupro das camisas foi o Eintracht Braunschweig.

Pois é, nobres leitores, nem tudo são flores por essas Terras Saxãs que o escriba aqui reside. O eterno rival do Hannover 96, já no longínquo 24 de março de 1973 lançou ao mundo o que chamo de “Indústria do Estupro das Camisas”, assinando um contrato com a empresa de bebidas Jägermeister. Na época, os clubes alemães jogavam com camisas completamente lisas, nem o escudo do clube era impresso, eram apenas as cores do clube e ponto final. Com esse contrato o Eintracht Braunschweig transformava suas tradicionais camisas amarelas em verdadeiros outdoors para a Jägermeister e quase perdia até o nome transformando-se em “Eintracht Jägermeister”, proposta que foi barrada pela Federação Alemã. Até Paul Breitner, o maior futebolista alemão de todos os tempos, em sua curta passagem pelo Eintracht Braunschweig teve que usar essa famigerada camisa outdoor-Jägermeister. E por incrível que pareça, essa camisa é um objeto cult entre os colecionadores de camisa oficiais de Futebol.

O Eintracht Braunschweig abriu uma caixa de pandora que se espalhou como um cançer, logo quase todos os clubes no planeta já estavam estampando publicidade nas camisas. Nem as seleções nacionais fugiram a regra, pois ninguém esquece a folha de café dentro do escudo da seleção brasileira na Copa de 82. Algo que foi até proibido inicialmente, mas a CBF deu um jeito de burlar a regra, estuprando e alterando o próprio escudo.

Hoje o que parece ser natural, no passado foi um escândalo, e até hoje regras existem na tentativa de controlar a ganância dos patrocinadores. Vide o livro de regras da Football Association na Inglaterra, que tenta delimitar um espaço de 200cm² para os patrocinadores.

Particularmente meu ceticismo não me deixa acreditar em regulamentações para o Capitalismo e suas aplicações no Futebol Moderno, pois são os próprios Cartolas, cúmplices desses estupros , que fazem as próprias regras. O fim das violações nas camisas só vai acontecer, quando os Torcedores tomarem as rédeas e aprenderem a gerir, tornando-se assim classe dominante no Futebol.

Perdoem-me pela metafísica, mas “Karma” no Futebol existe! E os malditos e poderosos de Braunschweig, que abriram e ensinaram ao mundo como violar suas próprias tradições, hoje apodrecem nas profundezas lamaçais da 3° Divisão Alemã.

Nunca assinem um contrato com o Satanás em pessoa, cedo ou tarde o chifrudo volta para cobrar a conta... Não é a toa que a camisa é chamada devotamente de "Manto Sagrado".

quarta-feira, 14 de julho de 2010

A falência da fusão Capital-Futebol

Por Roberto Oliveira

Ao longo de todo século xx, a America Latina

foi o grande centro produtor de jogadores de futebol do globo. Gênios estes cujos dribles, astúcias e gols encantaram o mundo com a magia de um sentimento que somente o futebol parece suscitar. Das dezoito copas do mundo disputadas do século passado ao inicio deste, simplesmente 9 ficaram em terras platinas ou brasilianas –

duas para os uruguaios, mais duas para argentinos, e cinco para a scratch canarinho. Além de que 4 dos maiores entre os maiores artistas da bola nasceram por aqui, Pele, Garrincha, Dieguito, e Di Stefano.

Com isso, enquanto grande produtor de “matéria-prima” para o espetáculo, e enquanto setor de desenvolvimento do cenário cultural de grande potencial que é o esporte, principalmente os de massa como o futebol; a America Latina sempre foi celeiro de mercadoria para realização de capital e portanto das relações de exploração social do capitalismo também (e obviamente) no futebol. Não estando o futebol dissociado do sistema social no qual ele é praticado. Portanto, o futebol não é de forma alguma indiferente à reforma do sistema, e está totalmente adequado às novas formas de apresentação do capital pós-reestruturação – cada vez mais centralizado, financeirizado e mundializado.

A Europa, de onde se difundiu o esporte bretão para o resto do globo, tem uma estrutura organizativa muito superior à da America Latina, ainda tão oligárquicas politicamente e provinciana estruturalmente, e às da África e Ásia, totalmente incapazes de disputar com aquelas. Tornando-se o velho continente conseqüentemente muito mais atraente para pratica esportiva e para exploração midiática e mercantilizante do futebol. Hoje, Barcelona e Real Madrid representam perto de 1 % do PIB Espanhol, ao passo que times da primeira divisão que disputam o mesmo campeonato que eles, decretam moratória e tem protesto dos jogadores (de

cueca) em campo. Ademais, o atual clube campeão europeu, o italiano Internazionale, conquistou o título sem nenhum italiano como titular. Há um evidente processo de concentração da matéria prima do futebol, os tão valiosos craques, onde estão os grandes clubes europeus. E isto acontece porque estes são cada vez em maior número, pois o que os credencia agora a esse status de “grande” é o poder financeiro de investimento, e não mais sua historia construída a partir do futebol, o que abre as portas de qualquer clube para as investidas dos capitais americanos e asiáticos principalmente – são as sociedades anônimas, com as quais os clubes agora tem donos percentualmente. Como podemos ver, não à toa a America Latina sofre mais que qualquer outra localidade com relação à exportação de atletas, ela tem alta capacidade produtiva no esporte e o capital futebolístico que é cada dia mais internacional está engendrado geograficamente nos clubes europeus.

Entretanto, como é de praxe no capitalismo, aparece daí a contradição. Na Copa do Mundo atualmente sendo disputada na África, dos 32 países que iniciaram a competição: 13 eram europeus, 8 americanos, 6 africanos, 3 asiáticos e 2 oceânicos. Das 16 seleções que passaram para a segunda fase do torneio, nada mais nada menos que 7 são americanas (somente a fraca

Honduras ficou de fora); 6 são européias (e a campeã e vice do mundo voltaram mais cedo para

casa); além de duas asiáticas, e uma da África – outro centro exportador na relação colonialista do futebol.

O que ocorre é que ao somente importar na

relação de pacto colonial com a África e primordialmente com a América, a Europa perde capacidade produtiva autônoma (e que diga-se

de passagem, é altíssima) e pode com o passar do tempo perder referência, deixar de ser respeitada enquanto grandíssima escola do futebol mundial. Em contraposição a esse “novo modelo moderno de futebol”, é que surge no próprio continente europeu, mais notadamente na Itália, o movimento “No al cálcio moderno”(não ao futebol moderno). Reivindica exatamente a autogestão dos clubes europeus e o rechaçamento do capital financeiro no futebol, o que possivelmente

equilibraria e restabeleceria uma maior naturalidade nas relações entre os futebóis de todo o globo.

Está claro, portanto, a falência estrutural de um projeto desportivo puramente mercantil, que desequilibra as relações esportivas e que danifica as estruturas organizativas, além de explorar as diferenças socioeconômicas – enquanto as crianças européias estudam em período integral, as crianças da periferia mundial padecem com a falta de educação, mas são celebradas ao futuro, como no fetiche da mercadoria, ao encantarem os olhos do mundo com pés de quem nunca pisou numa escola. Tal falência é evidente nos exemplo das relações sociais do futebol (neocolonialistas), notadamente as da Europa com a América. É preciso, sim, repensar o modelo esportivo que pretendemos sustentar. Mas também é necessário por fim ter a clareza de que nenhum projeto social, seja esportivo, educacional ou o que seja, se desenvolve desvinculado da estrutura social vigente, e que para formatação de novos modelos micro, a transformação no plano macro se faz imperativa.


quinta-feira, 24 de junho de 2010

A Seleção Multicultural Alemã e a "Naturalização da Ignorância" na Mídia

É impressionante como a mídia brasileira desconhece o futebol e a sociedade alemã. Para muitos jornalistas a Alemanha convocou para essa Copa uma verdadeira "Legião Estrangeira" através de um "Exército de Naturalizados". Pessoalmente acho que o que foi "naturalizado" e formalizado por muitos foi o racismo e a ignorância na mídia.

Para um imbecil como Galvão Bueno, por exemplo, qualquer cidadão que não tenha olhos azuis e os “arianos” cabelos loiros na seleção alemã é um "naturalizado".

O que define um cidadão alemão? Ou melhor, o que define um cidadão?

Vamos aos fatos, para tentarmos entender um pouco a atual realidade alemã .
Aqui 23% da população é de imigrantes ou de descendentes de imigrantes, o que é chamado pelas autoridades alemãs de "Migrationshintergrund".

Só de descendência turca são 14,2 % da população...

A sociedade alemã hoje é Multicultural. Eu não vou nem dissertar sobre se isso é bom ou ruim, para não quebrar o teclado de raiva aqui. Mas hoje isso é um fato para quem mora na Alemanha.

E isso se reflete na seleção alemã em vários casos.

O caso de Klose e Podolski , eles são Germânicos da Silésia pelo velho Jus sanguinis, devido as comunidades alemães que vivem hoje em territórios que pertencem politicamente a Polônia. Existem até alguns movimentos e historiadores daqui que defendem que a "Schlesien" é Alemanha.

Até o começo do século passado , 75% da população da Silésia falava apenas o alemão. Isso vem desde do antigo Heiliges Römisches Reich (O Sacro Império Romano-Germânico). Em 1742 a Silésia foi absorvida pela Prússia e com a Unificação Alemã a Silésia virou parte do Império Alemão. Só com o fim da segunda guerra que a população alemã começou a ser realojada da Silésia e recolonizada por colonos Poloneses. Algo em termos históricos ainda muito recente.

Portanto esse chororô de que Klose/Podolski não são alemães, é pura falta de conhecimento da História e Cultura Alemã.

O caso de Özil, eu acho um dos mais graves e revela o quão racista é a mídia brasileira. Ele nasceu em Gelsenkirchen na Renânia e foi revelado pelo Schalke 04, mas é filho de imigrantes Turcos. E Como 14,2 % da população alemã ele tem um "Türkisch Migrationshintergrund". Mas é só ele tocar na bola que os profissionais-comentaristas-formadores-de-opinião já vão o chamar de “Turco”, mas aí eu começo a desconfiar que esses nobres formadores de opinião nem saibam onde fica Gelsenkirchen num mapa. Özil nasceu, engatinhou, aprendeu a andar/comer/cagar/vomitar, estudou, viveu e jogou unicamente e exclusivamente na Alemanha. Nunca morou na Turquia! Mas só porque é filho de imigrantes já é qualificado pela mídia como Turco.

Além do Özil, temos Boateng, Aogo, Mario Gomez e Khedira aos quais todos nasceram na Alemanha! São apenas filhos de imigrantes... Marko Marin chegou na Alemanha ainda Bebê, com a família refugiada da Bósnia.

Cacau é o único “naturalizado” ao pé da letra jurídica, mas começou jogando na 5° divisão daqui e só depois de 10 anos em Terras-Germanis, ele adquiriu a nacionalidade alemã, como os milhares de Afrodeutsche ou schwarze Deutsche que podemos ver em qualquer grande cidade alemã. O cara começou aqui há mais de uma década jogando literalmente como amador, entrando na Alemanha como "músico" de uma banda brasileira e depois começou a jogar na liga amadora. Jogou até no time B do Nürnberg que é praticamente os juniores, para só depois ser promovido para o time A.

A Seleção alemã deve refletir a sociedade alemã! E hoje nem a sociedade, nem a seleção é apenas composta pela "nobre" raça ariana loira de olhos azuis.

Mas os racistas latem "Onde ficar a Ideologia e Tradição Alemã com esses imigrantes ?"

Ora bolas ... O que seria a "Ideologia Alemã"? Ou o que seria a "Tradição Alemã"?

Em termos de ideologia podemos aqui ir do Idealismo Puro de Hegel ao Materialismo de um Ernst Thälmann. Podemos sair do revisionismo social-democrata meia-bunda de um Karl Kautsky ao Marxismo Clássico de uma Rosa Luxemburg. A Ideologia Alemã pode ir do ultra-nacionalismo Nazi ao Internacionalismo proletário de um Walter Ulbricht. No final da equação todos foram Alemães.

A "Tradição Alemã" é algo completamente heterogêneo e complexo que pode ir das Lederhosen ao sul na Bavária até aos dialetos Frísios no extremo norte. Eu moro em Hannover e aqui se fala o tradicional Hochdeutsch (Alto Alemão),mas muitas vezes quando vou ver jogo em Twistringen que fica a menos de 200km daqui, a população local já fala um outro dialeto chamado Plattdüütsch, uma mistura das línguas Alemã e Holandesa. E só como muita reza eu começo a entender alguma coisa.

Eu defendo a "Alemanha para quem nela Trabalha", um velho conceito da antiga Spartakusbund e depois adotado pela Alemanha Oriental. Acho que a Alemanha pertence a todos os trabalhadores que residem em território alemão. E devem ser tratados como iguais, algo que não vemos no dia-a-dia aqui. Nas ultimas eleições aqui em Hannover, 20% da população não teve direito a voto porque não era "cidadã". Isso que é um verdadeiro absurdo!!

Nacionalidade não vem com Ius sanguinis e um direito divino medieval hereditário. Nacionalidade assim como qualquer outro direito não cai do céu através de uma intervenção divina. Nacionalidade se conquista, principalmente através do trabalho.
Do que adianta ter um pedaço de papel em mãos, e nunca ter vivido, trabalhado e nem falado a língua da Terra, que aquele mísero documento que para apenas burocratas tenta representar alguma coisa.

Por Ius sanguinis somos todos africanos, afinal o primeiro Australopithecus africanus e Homo sapiens veio de lá!

Saudades do velho Eric Cantona e sua atitude de “Fuck your National Identity!”.