terça-feira, 14 de setembro de 2010

Torcida, criminalização e exclusão: desde 1906!

Em tempos de Torcidas Organizadas que viram Escolas de Samba e verdadeiras empresas, é difícil imaginar como surgiu no Brasil toda essa paixão que é típica dos nativos pelo futebol, e como surgiu essa "loucura" que é torcer. Como uma vez me falou Fred, daqui mesmo do blog: "No Brasil o futebol tem uma conotação diferente da Europa: é pura catarse".

A relação do brasileiro com o futebol é muito, muito mais antiga do que a gente possa imaginar. Tive acesso a um artigo muito interessante sobre o futebol na Bahia nos seus primórdios, considerando os
primeiros torneio entre clubes de Salvador. Vale lembrar que naquele contexto o futebol ainda era amador, com os clubes sendo formado exclusivamente por "homens de bens" que praticavam o esporte numa concepção de lazer. Para tanto organizavam seus clubes esportivos, que competiam entre si. Os "populares" ficavam sempre à margem do jogo, e à margem do campo, apenas observando aquele jogo que lhes impressionava

O artigo em destaque é esse aqui: FUTEBOL E CULTURA POPULAR EM SALVADOR, 1905 - 1915, de autoria de Henrique Sena dos Santos, um acadêmico que fez uma importantiéssima pesquisa sobre como o futebol remodelou e expôs uma série de características da tradicionalmente racista e excludente sociedade baiana. Que só nos mostra o quanto isso se repete até hoje.

Gostaria de destacar exatamente esse trecho de uma reportagem usada pelo autor, mostrando que desde 1906 imaginar pessoas que se envolvam com o jogo, mesmo que não estando dentro de campo, possam interferir no mesmo, incomodava muita gente. E as medidas, adivinhem, eram exatamente as mesmas: reprimir.

Abaixo um trecho de uma matéria sobre o jogo Vitória 2 x 1 Internacional
"É de lamentar que uma malta de desocupados perturbem as belas partidas a que o público
acorre tão cheio de curiosa satisfação, prejudicando os movimentos dos jogadores, fazendo-os
escutar ofensas quando perdem e dando triste idéia dos nossos foros de civilização. Convém
notar que o Internacional é composto de ingleses que devem ter de nossa parte, como
hospedes que são, todas as distinções. Achamos que a polícia bem podia sanar esta
inconveniência que vai se tornando um péssimo costume."
(Jornal Diário de Notícias, 11 de junho de 1906)

Detalhe importante: o clube do Vitória, fundado em 1899, era composto exatamente por
brasileiros que não tiveram a oportunidade de jogar no Internacional, clube composto exclusivamente por gentlemans ingleses. A cara do Brasil pós-colonial, subserviente agora à grande potência do século XIX e XX.

De lá para cá o futebol mudou bastante, se tornou um esporte profissional, atraiu milhões de pessoas para o estádio e gera uma absurda renda para os seus envolvidos. No entanto, o que vemos aqui é uma característica em particular que existia muito antes do jogo ser uma paixão nacional, pintada e bordada por tantos dramaturgos românticos, ou até antes mesmo de existirem competições profissionais e de alto rendimento; sempre existiu, e permanecerá viva por mais que se lute contra: o torcedor.

O que vemos hoje após o Estatuto do Repressor, dentre outras medidas absurdas que tem sido tomadas ao redor desse grande globo que, não à toa, parece uma bola, é que estão, mais uma vez, tentando deixar de fora o que há mais de cem anos eles chamam de "vândalos".


Isso mostra como para os donos do futebol a torcida ativa sempre significou um incômodo. Com o evoluir do esporte, só vimos provas de como "aquele povo mal-educado sentado na arquibancada" tem direitos até o limite em que não interfiram nos negócios de dirigentes e cartolas. Na
medida em que se tornam fortes demais e passam a mandar no jogo, deixam de ser importantes. Ou seja: ou é massa de manobra, ou não é nada.

Acabo então por remeter toda essa situação ao que se passa hoje no Vitória: o processo de democratização do clube. Após anos de "feudalismo" no clube, torcedores se mostraram indignados e hoje cobram eleições diretas. Para tanto já lançaram até um movimento.
No primeiro passo dado por esse grupo de torcedores, que nunca tiveram condições financeiras e nem status quo para atingir altos postos do comando do clube, os grandes cartolas que sempre dominaram o ECV tremeram. Antes mesmo de alguma manifestação, muitos já respondiam negativamente à idéia, chegando ao ponto do Presidente do Conselho Deliberativo do Vitória falar sem qualquer escrúpulo que é contrário às eleições diretas.

E assim sempre será.

Passou do tempo dos torcedores de todo o Brasil se levantarem e cobrarem o que mais defendemos aqui no TGJ: o futebol para os torcedores, o futebol para o povo.

Só assim, com a extinção de cartolas oportunistas, dirigentes interesseiros e seus lacaios sangue-sugas que poderemos derrotar a o futebol moderno, que transformou essa paixão mais do que centenária em um grande balcão de negócios, que tem como fim apenas o lucro.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Spruchbändern, quando o simples é o eficiente

Existem inúmeras formas de protesto, isso só depende do grau de consciência da Torcida. Tudo pode ser válido para que o acúmulo de ação possa elevar o nível de consciência da massa, desde um simples abaixo-assinado até uma passeata de torcedores. Tudo é possível e tudo pode ser usado em uma luta.

Uma coisa que aprendi, aqui na Alemanha, é a utilização constan
te do que em terragermanis é chamado de “Spruchbändern”. Faixas horizontais de papel que cruzam as arquibancadas com frases e palavras de ordem da Torcida.

Essa velha maneira de comunicação e protesto é uma rotina nos estádios daqui. Tudo se resume a um simples rolo de papel com 80 cm de largura por alguns metros de comprimento, onde se escreve o que for necessário para que a torcida possa ser lembrada. Barato pela utilização de material reciclável e descartável após o uso. Tudo é segurado no braço mesmo pelos torcedores durante alguns minutos durante vários momentos da partida. Como tudo é de papel, pode-se usar dezenas de frases durante os 90 minutos.

Acho que já vi tod
o tipo de frase nas curvas da Bundesliga. Frases políticas (seja de esquerda ou direita), econômicas (a luta pela regra do 50%+1), institucionais (sobre a DFB ou a FIFA), clubísticas (sobre o clube em si ou o rival), históricas (sobre a guerra), culturais (sobre as diferentes regiões na Alemanha) e até sobre um determinado lance do jogo (como uma faixa que se dizia apenas “Falta!").

Essa tradição vem desde da idade média
e renascença, os Spruchbändern são os precursores dos balões de fala muito utilizados nos quadrinhos. Podemos ver esses rolos com frases em varias pinturas renascentistas, na heráldica alemã e até em tatuagens. Algo que já existia em inúmeras ocasiões da vida pode ser, e deve ser, utilizado nos estádios.

Sempre é bom testar se existe mesmo liberdade de expressão no Futebol Moderno.

O simples ainda pode ser o eficiente...


sábado, 7 de agosto de 2010

Torcedores: À LUTA!

A aprovação do “Novo Estatuto do Torcedor” no dia 27 de julho de 2010, trouxe à tona mais uma vez toda a polêmica do novo modelo de futebol que está sendo aplicado dia-a-dia no Brasil e no mundo.

Como já falamos várias vezes aqui no TorcidaGanhaJogo.blogspot.com ; o futebol moderno veio a transformar os estádios e o jogo em um espaço elitizado, no qual as pessoas deverão se comportar como meros espectadores, pagarão ingressos caríssimos, ficarão sentados, assistirão ao “espetáculo” e voltarão para casa, tal qual uma ópera.

Acontece que essa lógica vem a subverter o verdadeiro sentido do futebol. O jogo se formou historicamente no que é hoje, pelo fato de conseguir trazer para si uma gama de sentimentos que só o futebol é capaz de proporcionar, envolvendo multidões que buscam no jogo única e exclusivamente defender as suas cores e seus mantos, numa atividade que é inquestionavelmente cultural.

Nas últimas décadas, o futebol se tornou (através da força da lei) um grande mercado, no qual interesses particulares interferiam no andamento do jogo e de todo o seu funcionamento, criando distorções nos seus princípios, e verdadeiras aberrações justificadas pelo simples fato de agora o futebol ser pautado pelas leis do dinheiro, e não por ser simplesmente o futebol.

Não precisarei aqui entrar em casos mais detalhados e recentes como o de J. Hawilla e a Traffic, como os clube-empresa intinerantes e nem os proprietários mafiosos dos clubes europeus (caso tenha interesse em saber mais sobre isso, acompanhe os outros posts do nosso blog).

O importante aqui é entender que o novo Estatuto do Torcedor é mais um golpe no futebol. O tal estatuto e as suas novas regras “mais rígidas pela moralidade do futebol” estão fundamentadas exatamente na concepção de futebol como um mercado. E isso é extremamente perigoso, uma vez que para o futebol-mercado não existe mais o categoria “torcedor”. Agora somos todos “consumidores”.

Mais uma vez, na base da lei, manipulam o sentido do futebol, distorcem-no, transformam-no e nos impõe uma medida indesejada. Não se trata de um Estatuto do Torcedor, e sim um estatuto que vem a destruir completamente tudo o que é típico de um torcedor nas arquibancadas: a festa, a paixão, as coreografias, os cantos etc.

Dentro disso, podemos colocar a maior proibição recente: a pirotecnia. Sinalizadores, piscas e qualquer tipo de fogo de artifício, após a aprovação do “estatuto”, são considerados objetos que podem gerar a desordem no estádio.

Qualquer pessoa que minimamente já participou de uma festa no estádio que envolvesse fogos de artifício sabe que é preciso muita má índole para ferir alguém. No entanto, como já falei antes, subverteram a realidade, e os fogos foram proibidos porque incomodavam... as transmissões televisivas!

Fomos proibidos e ameaçados de prisão por fazer a nossa festa porque, alegam os tais promotores e “especialistas em segurança pública”, senhores que nunca pisaram em estádios, que os sinalizadores podem ferir pessoas, quando na verdade defendem os interesses das empresas que transmitem as partidas, porque a fumaça pode atrapalhar as imagens.

Já passou da hora de se levantar e lutar pelo bem do futebol, pelo verdadeiro direito do torcedor e pela integridade desse bem cultural mais do que centenário em nosso país.

Se o estatuto é do TORCEDOR, que seja o TORCEDOR quem vai dizer o que deseja e o que deve ser feito. Não somos consumidores e não vamos ao estádio exibir status e tomar uísque. O estádio é para nós uma casa, onde encontramos amigos, pessoas que se identificam com o mesmo clube que você e vai para lá fazer festa, apoiar o time e “ser gente”. O futebol foi feito para ser vivido, e não comprado e exibido numa nota fiscal e nem para fazer meia dúzia de espertos ricos por brincarem coma nossa paixão.

O blog TORCIDAGANHAJOGO.blogspot.com faz um convite a todos os que amam o futebol e que são TORCEDORES, a se levantarem, organizarem os seus companheiros de clubes, e até mesmo superar as rivalidades convidando torcedores de outros clubes, e se envolverem nesse movimento que já é realidade e é apenas o primeiro passo para uma série de conquistas contra o futebol moderno.

Comunidade PIROTECNIA NÃO É CRIME
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=105077378

Comunidade NÃO AO FUTEBOL MODERNO
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=23958689

Acompanhe as discussões, dê sugestões e façamos valer a voz dos verdadeiros torcedores.

E que levemos o mais rápido o possível essa ação para a arquibancada. Esse é um jogo que não podemo deixar de ganhar.


domingo, 1 de agosto de 2010

Reflexos do Novo Estatuto do Torcedor.

"Mau comportamento nos estádios terá penas mais duras a partir de hoje. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta terça-feira o projeto de lei que altera o Estatuto do Torcedor. Com ele, o torcedor que cometer atos de vandalismo e violência em até 5 km dos estádios, invadir o campo ou promover confusão pode pagar multa, ser proibido de assistir aos jogos e até ser preso."

Notícia postada no site de esportes do Uol por Camila Campanerut, leia na íntegra em:

http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2010/07/27/novo-estatuto-do-torcedor-pode-banir-organizadas-por-ate-tres-anos-dos-estadios.jhtm

Eu lutei o máximo para não falar desse assunto aqui no blog, mas acaba sendo inevitável quando começamos a perceber o que está armado para nós torcedores nos próximos jogos de futebol, pelo menos aqui no Rio Grande do Sul. A Torcida Guarda Popular do Inter, do Sport CLub Internacional, teve na ultima reunião com a Polícia Militar duas de suas músicas censuradas e proibidas por conter palavrões e agressividade, os trechos das mesmas que segundo a Policia continham tais ofenças são, "matar um puto tricolor" de uma versão de Have you ever seen the rain da banda Creedence Clearwater Revival e "lá no bairro da azenha há uma banda puta que faz avalanche" "cuidado o gremio, nós vamos derrubar o chiqueiro" de uma versão de um canto comum na Argentina.

Além da censura de musicas a polícia também informou a inclusão de um posto policial cinegrafista que registrará toda a ação policial no estádio e expressou a vontade de cadastrar membros da torcida, que por não se intitular Torcida Organizada nega qualquer convite de cadastro.

Sabemos que já é comum leis serem implantadas sem antes pensar em como serão executadas e como serão treinados os responsáveis por torna-las vigentes. O Despreparo em tal circunstância pode acarretar em grande confusão na bancada.

Amanhã é dia de GreNal vamos ver como se sai a aplicação do novo estatuto.
NÃO AO FUTEBOL MODERNO

terça-feira, 27 de julho de 2010

BSG , A Gestão Coletiva na Antiga Alemanha Oriental

Existem inúmeras formas de gestão coletiva nas empresas e indústrias, quando estas são democraticamente socializadas, e todas essas idéias podem ser extendidas aos Clubes de Futebol.

Na antiga Alemanha Oriental, por exemplo, houve o modelo dos Betriebssportgemeinschaft ou BSG, uma resposta coletivista de gestão no Futebol. A reconstrução de uma nova Alemanha Socialista se deu na base do conceito da “Reorganização baseada na Produção”. Esse novo conceito entregou vários clubes de Futebol para serem geridos e organizados pelos trabalhadores da produção de base locais. Foi-se extinto o antigo modelo reacionário Nazi-Elitista, para ser suplementado por um modelo socialista, onde as organizações de base se transformaram nos novos Gestores.

Uma tradução rudimentar e ao pé da letra dos BSG, seria “Comunidade Esportiva da Companhia”, e essa companhia pode ser qualquer fábrica ou ramo da produção.
O clube passa então a ser gerido diretamente pelo sindicato ou representação de base daquele ramo produtivo, por exemplo, o Chemie era o time gerido pelo sindicato dos trabalhadores da indústria química. Os gestores do clube passaram a ser eleitos por todos membros daquele ramo da produção local.

O que era antes, no período Nazi, chamado de Leipziger SV, organizado apenas como um clube esportivo (Sportverein), foi entregue depois da guerra aos trabalhadores da indústria química e virou BSG Chemie Leipzig. O sindicato passo
u a ter o total controle sob o clube, e até hoje a maioria dos torcedores trabalham no mesmo ramo da produção. O mesmo ocorreu com o FC Energie Cottbus que passou a ser gerido pelos trabalhadores das minas de carvão e reorganizado como BSG Energie Cottbus e assim por diante. As únicas exceções eram os clubes organizados pela polícia que eram chamado de “Dynamos” e os clubes organizados pelo exército denominados de “Vorwärts”.


Os clubes BSG recebiam todo o patrocínio e apoio dos seus respectivos “Volkseigener Betrieb”, empresas do povo geridas coletivamente através de cooperativas. E nenhum jogador poderia ganhar nem mais nem menos que qualquer trabalhador daquele ramo da produção, mas este estaria liberado para treinar e jogar em tempo integral como qualquer jogador profissional.


Isso eliminou a possibilidade de explosão inflacionária dos salários que hoje vemos no Futebol Moderno, onde clubes inteiros quebram só para pagar as folhas de pagamento. Recentemente até o todo poderoso Barcelona, um dos clubes mais ricos do planeta, pediu um empréstimo de 150 milhões de euros para cobrir os salários milionários de seus jogadores, algo impossível de imaginar nos BSGs. O histórico meio-campista Jürgen Sparwasser autor do gol da vitória da Alemanha Oriental sob a Alemanha Ocidental na copa de 1974, ganhava o mesmo salário que qualquer operário da indústria de Magdeburg recebia no final do mês.

Formas de organização coletiva existem várias e com inúmeras possibilidades, não vou nem disserta sobre isso. O que temos que lembrar é que isso tudo faz parte de um processo histórico que como diria o velho poeta Samuel Beckett, cabe a nós tentarmos e se falharmos, tentaremos de novo para falharmos de uma formar melhor...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Caso Felipe/Corinthians e o esvaziamento das relações subjetivas.

Deixarei um breve comentário sobre o caso que tem deixado muito formulador de futebol confuso sobre que parte tomar.

Fazendo uma breve contextualização: Felipe, goleiro do Corinthians, forçou o clube a negociá-lo, criou um certo desconforto na sua relação com os dirigentes. Foi negociado com o Genoa da Itália, mas teve o negócio frustrado quando o clube desistiu de contratá-lo por conta do excessivo número de jogadores estrangeiros no plantel. Felipe acionou o sindicato dos atletas e fez com que o Corinthians o readmitisse, uma vez que não poderia mais atuar por outro clube no Brasil e também não teria conseguido fechar contrato na Europa.

Colocamos aqui dois lados da questão: 1) A questão trabalhista de Felipe, que vive em intenso conflito com a direção Corinthiana, uma vez que é assalariado do clube, e deve satisfações 'à empresa'. 2) A questão que se tornou frequente no futebol moderno de jogadores que abandonam clubes pensando único e exclusivamente no seu aspecto financeiro pessoal.

Como bons defensores do futebol que somos aqui no TorcidaGanhaJogo.blogspot.com venho trazer alguns pontos que devem ser intensamente discutidos nessa fase turbulenta que passa o futebol no mundo.
Um primeiro ponto importante a ser colocado é que o jogador de futebol hoje não é um trabalhador qualquer. Mesmo que seja uma minoria, o futebolista alcançou um status diferenciado do resto da classe. Pode ser colocado hoje ao lado dos artistas 'star system', como alguns estudiosos da Industria Cultural costumam colocar.

Tais seres do star system não são meros vendedores da sua força de trabalho. São privilegiados partindo do principio que tem maior poder de decisão sobre o seu ganho, e ainda tem a partir do seu exercício profissional uma série de outras oportunidades de renda. Portanto, algo importante a ser pontuado na discussão é que não se trata meramente de uma questão "trabalhista".

Felipe tinha um propósito, ir para a Europa e ganhar melhor. Tem qualidade para isso e já tinha destino certo. Forçou o Corinthians a fazê-lo da mesma forma que Kaká fez ao São Paulo: colocou que o seu contrato expirava dentro de meses e caso não fosse vendido imediatamente o clube só teria a perder. Ou vendia o jogador pelo preço que ali estava, ou perdia o direito do seu passe.

Aqui então colocamos como o futebol moderno e os seus altos valores extra-futebolísticos (grana que só existiu no jogo a partir do football business mesmo) tornaram esse fenômeno tão comum. Jogadores que saem do clube a cada ano, mesmo que tenha posição de quase-ídolo, como era a de Felipe no Corinthians.

Hoje o que existe é uma tendência oportunista: jogadores que mal sabem ler, agenciados por empresários espertalhões, mudam de clube de acordo com a melhor proposta. Isso tem levado o futebol ao buraco, uma vez que não se forma mais o vínculo entre jogador, clube e torcida, uma das principais razões do futebol ser o que hoje é, uma grande construção coletiva de relações subjetivas.

Em um artigo na sua coluna no Estadão, Carlos Alberto Sardenberg, comemorou a vitória da Espanha na Copa do Mundo como um triunfo do livre mercado em prol do ganho do futebol. O pseudo-economista quis mostrar, com argumentos estapafúrdios, como, através da liberdade economica dos clubes espanhóis, o futebol nacional cresceu e subiu o seu nível (vale a pena conferir o absurdo).

Com isso aproveito pra fazer um gancho e explicar o seguinte: quando se critica a comercialização de algo, a transformação de bens culturais em objetos de troca, não se reclama apenas do poder econômico que impera sobre tudo ali dentro, se coloca acima de tudo, o esvaziamento das relações por conta da busca um maior ganho material.

O caso Felipe é apenas mais um para ilustrar como o futebol hoje tem sido deixado em segundo plano por ter virado um grande mercado. Tal qual a música tem sido produzida industrialmente deixando de lado o valor e os aspectos culturais que esse ramo da arte carrega, o futebol tem se tornado um mero mercado de conquistas superficiais de títulos/status, para maior atração de recursos.

Os clubes, colocados em uma organização típica de empresas, buscam para si retorno financeiro tratando o torcedor, antigo apoiador e sócio que apenas buscava o lazer no futebol, como um mero consumidor. O jogador que, mesmo recebendo salários e sendo um atleta, criava vínculos que iam além da relação do trabalho, buscando fazer parte da história daquela experiência coletiva, busca hoje o melhor salário do leilão e troca de clube a cada 8 meses.

Já o torcedor, aquele que ainda não aceita ser chamado de consumidor, que vai ao estádio, ao invés de ficar em casa assistindo pela TV... bem, esse já tem desistido do jogo. E aqui parafraseio uma amiga torcedora do Bahia: "Pra que ir pra estádio dar dinheiro praquele bando de safado que não tá nem aí pra mim?".


O futebol só vai mudar quando a sua estrutura política e econômica mudarem. Só vai mudar quando deixar de ser um grande balcão de negócios.

E isso não será pela boa vontade dos seus "donos".



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segunda-feira, 19 de julho de 2010

Futebol e Publicidade, A Indústria do Estupro das Camisas

Coleciono camisas de futebol a mais de 20 anos, minha primeira camisa eu ganhei ainda moleque e hoje tenho mais de 250 exemplares dos mais obscuros lugares do planeta. E qualquer colecionador maluco pode notar os "estupros graduais", que os patrocinadores impõem no maior símbolo futebolístico para um torcedor, sua camisa.

Esse estupro vem de uma forma gradual e pode ser através de uma simples faixa publicitária na barriga, ou podemos ir ao extremo de inúmeros logotipos na camisa, das mangas e onde não se pode nem imaginar. Para os publicitários do Futebol Moderno até a cores seculares podem ser violadas, tudo em nome do mercado e do dinheiro. Assim como uma vítima pode ser estuprada de inúmeras formas, a camisa no futebol obedece à mesma ótica dos violadores. A arma do dinheiro é colocada na cabeça do clube, e esse obedece a todas as “taras” dos patrocinadores, e que se dane a História ou a Torcida.

A camisa de futebol é o mais importante de todos os símbolos no Futebol. Maior que a bola, maior que o jogador, maior até que o próprio presidente do clube. Bolas, jogadores, dirigentes vão e vêm todo ano, desde que inventaram esse jogo a única coisa que fica é a camisa. Esse objeto de fascínio de tantos, seja pelas cores ou pelo escudo, é a única coisa permanente nesse esporte. Por isso que o torcedor é um obcecado e o colecionador um esquizofrênico.

O Club Atlético Peñarol entrou para a História como o primeiro clube a conceder publicidade nas camisas já nos meados dos anos 50. Mas tudo não passou de uma brincadeira e esse negócio só foi levado a sério 20 anos mais tarde, e o clube que realmente inaugurou e sistematizou essa indústria do estupro das camisas foi o Eintracht Braunschweig.

Pois é, nobres leitores, nem tudo são flores por essas Terras Saxãs que o escriba aqui reside. O eterno rival do Hannover 96, já no longínquo 24 de março de 1973 lançou ao mundo o que chamo de “Indústria do Estupro das Camisas”, assinando um contrato com a empresa de bebidas Jägermeister. Na época, os clubes alemães jogavam com camisas completamente lisas, nem o escudo do clube era impresso, eram apenas as cores do clube e ponto final. Com esse contrato o Eintracht Braunschweig transformava suas tradicionais camisas amarelas em verdadeiros outdoors para a Jägermeister e quase perdia até o nome transformando-se em “Eintracht Jägermeister”, proposta que foi barrada pela Federação Alemã. Até Paul Breitner, o maior futebolista alemão de todos os tempos, em sua curta passagem pelo Eintracht Braunschweig teve que usar essa famigerada camisa outdoor-Jägermeister. E por incrível que pareça, essa camisa é um objeto cult entre os colecionadores de camisa oficiais de Futebol.

O Eintracht Braunschweig abriu uma caixa de pandora que se espalhou como um cançer, logo quase todos os clubes no planeta já estavam estampando publicidade nas camisas. Nem as seleções nacionais fugiram a regra, pois ninguém esquece a folha de café dentro do escudo da seleção brasileira na Copa de 82. Algo que foi até proibido inicialmente, mas a CBF deu um jeito de burlar a regra, estuprando e alterando o próprio escudo.

Hoje o que parece ser natural, no passado foi um escândalo, e até hoje regras existem na tentativa de controlar a ganância dos patrocinadores. Vide o livro de regras da Football Association na Inglaterra, que tenta delimitar um espaço de 200cm² para os patrocinadores.

Particularmente meu ceticismo não me deixa acreditar em regulamentações para o Capitalismo e suas aplicações no Futebol Moderno, pois são os próprios Cartolas, cúmplices desses estupros , que fazem as próprias regras. O fim das violações nas camisas só vai acontecer, quando os Torcedores tomarem as rédeas e aprenderem a gerir, tornando-se assim classe dominante no Futebol.

Perdoem-me pela metafísica, mas “Karma” no Futebol existe! E os malditos e poderosos de Braunschweig, que abriram e ensinaram ao mundo como violar suas próprias tradições, hoje apodrecem nas profundezas lamaçais da 3° Divisão Alemã.

Nunca assinem um contrato com o Satanás em pessoa, cedo ou tarde o chifrudo volta para cobrar a conta... Não é a toa que a camisa é chamada devotamente de "Manto Sagrado".