sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Unidos contra o novo Estatuto do Futebol

Recebi com prazer o convite do companheiro Irlan para contribuir com o Torcida Ganha Jogo. Espero que possa somar aos demais em uma visão mais ampla do futebol, enxergando a influência da conjuntura nacional naquele que é o elemento mais característico da cultura brasileira. Acredito que posso me diferenciar aos já blogueiros, podendo trazer um pouco da visão do sudeste e dos problemas que aqui vivenciamos.

Botafoguense, sou estudante de jornalismo e história. Tenho 18 anos e milito há seis anos no movimento estudantil carioca. Sou hoje repórter do Redação Alvinegra, projeto de estudantes no jornalismo esportivo, e, agora, blogueiro do Torcida Ganha Jogo.

Para dar o pontapé inicial nas discussões, proponho completar o debate iniciado pelo Irlan, em um texto sobre as recentes modificações no Estatuto do Torcedor e sua superficialidade em questões fundamentais. Este texto foi redigido com o objetivo de ser a base de um protesto aqui no Rio de Janeiro, com todas as torcidas organizadas. Nos próximos dias, me proponho a aprofundar cada uma das questões por ele abordadas.

UNIDOS CONTRA O NOVO ESTATUTO DO FUTEBOL

“Valorize a cultura brasileira, não somos europeus”

No último dia 27 foi sancionada pelo presidente Lula uma série de modificações no Estatuto do Torcedor datado de 2003. Desde que implantado, tal estatuto trouxe benefícios significativos como a maior transparência dos clubes a cada jogo, a partir da divulgação de público e renda. As recentes mudanças tem o objetivo de criminalizar a violência entre grupos de torcedores organizados, a prática do cambismo e a manipulação dos resultados. Entendemos e concordamos que todas estas ações devem ser coibidas, porém destacamos um demasiado exagero em algumas proibições, e a falta de avanço em alguns campos fundamentais.

O que é digno de crítica é a imposição de um modelo de torcedor estrangeiro, que ignora as manifestações populares no estádio e a cultura do torcedor brasileiro. Tais imposições acabam, por exemplo, com a possibilidade de uso de artigos pirotécnicos corriqueiramente utilizados nos estádios de futebol, onde torcidas promoviam shows à parte. Sinalizadores, fumaça, candelas, máquinas de papel picado, faixas verticais e papel higiênico estão PROIBIDOS nas arquibancadas de acordo com o G.E.P.E. que também, a seu próprio critério, fica responsável por determinar o número de bandeiras permitidas a entrar. Esta proibição total e válida em todos os setores dos estádios, restringe a gama de expressões populares legítimas disponíveis.

Em relação aos direitos dos torcedores, a proibição da entrada com bebidas e alimentos o submete a preços hoje já excessivos. O estatuto, que prevê a regulação de preços e aumentos abusivos, não esclarece quem seria este agente regulador. Para o preço dos ingressos o estatuto se exime de qualquer consideração. Hoje um torcedor com dois filhos gasta cerca de R$50,00, sem alimentação e nos setores populares do estádio, para comparecer à um jogo, quase 10% do salário mínimo nacional.

A submissão dos torcedores aos horários impostos pela televisão inviabiliza a presença do trabalhador ao estádio e vai de encontro à questão dos transportes, tratada superficialmente pelo novo estatuto. Uma partida disputada as 21:50 no meio da semana, horário da televisão, termina por volta das 23:50. A evacuação completa do estádio, se rápida, dura até a meia-noite, horário em que o caos do transporte fica mais evidente: linhas de ônibus já não funcionam, trens e metros funcionam somente em grandes partidas, o torcedor mais uma vez é o prejudicado. Além disso, tal horário é inviável para o trabalhador, ou o estudante, que acorda cedo no dia seguinte.

A mamata e os desmandos das federações continuam não sendo alvo de um Estado omisso. É INACEITÁVEL uma confederação há 20 anos sob a mesma gestão, fraudulenta e criminosa. O mesmo vale para as federações que mantém práticas idênticas, sem nenhuma coerção do estado.

Se por um lado o rigor com os torcedores é demasiado, seus anseios não são supridos pelo novo estatuto. O rigor com os torcedores aumenta e o Estado continua submisso aos grandes grupos econômicos - que visam o lucro e não o espetáculo-, à FIFA – órgão também sombrio - na adequação às regras para a Copa do Mundo, e o mais prejudicado somos nós, os torcedores.

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